domingo, 20 de dezembro de 2020

+ 2 poemas inéditos em livro de José Bezerra Gomes (e fotografias)

JBG em Lagoa Santa/MG


Victor H. Azevedo, um de nossos editores, durante suas andanças de pesquisador, dessa vez pelo blog de Moacy Cirne, encontrou alguns poemas de José Bezerra Gomes que não foram publicados em sua Antologia Poética e tampouco constam na pesquisa realizada anteriormente por ele em jornais disponíveis na hemeroteca da Biblioteca Nacional. Segundo aponta o próprio Cirne, um desses poemas ("SOUSOURITA") é fruto da pesquisa de Willian Pinheiro.

Tratamos de compilar os poemas que Moacy reuniu em seu blog aqui, pois tem sido um dos objetivos de nosso projeto reacender, na memória dos novos e dos antigos, a obra (por vezes perdida) de poetas consagrados do Rio Grande do Norte.

Também trazemos fotos do autor para que o leitor possa agora ler seus escritos e ter em mente um retrato dele, para além das pouquíssimas fotografias que povoavam a internet.

Somos imensamente gratos ao pessoal da Lemnisco, de Currais Novos, pelo auxílio e cessão das fotografias.
* * * 


SOUSOURITA
[Publicado originalmente por Berilo Wanderley,
na coluna Revista da Cidade, da Tribuna do Norte (Natal),
em 15 de junho de 1960]

Tende consideração
ela é uma criança
Ela quer perguntar pela irmã
deixem deixem deixem
É sousourita
dormindo acordada
sousourita
sousourita
sousourita
acordada
dormindo
por sousourita
por sousourita
por sousourita

[Pesquisa: Willian Pinheiro, de Currais Novos]
Nota de Moacy Cirne, no Balaio:
Sousourita é um nome de mulher, já explorado anteriormente por JBG.
Sua grafia com "s" minúsculo pode ser proposital, assim como pode ser um erro de datilografia e/ou revisão. De comum acordo com o pesquisador seridoense, resolvemos mantê-lo tal qual se deu a publicação na TN.

***

MARATONA

Um menino
corredor
corria
correndo
para a sombra
para a sombra
de um pássaro

***

FOTOGRAFIAS DO AUTOR 
(Cedidas pelo pessoal da Lemnisco; As legendas nas fotografias, quando escritas com [W.N] ao início, são de Willian Pinheiro)

[W.N] JBG escrevendo "A porta e o vento", em sua casa na rua Pajeús em Natal. 


[W.N] JBG, possivelmente em MG.

JBG (de pé, sem camisa, ao centro) junto da turma.

[W.N] JBG em Guarapari/ES.

[W.N] JBG no escritório.

JBG (à esquerda) em Lisboa.

À esquerda, o poeta Anchieta Fernandes. Ao centro, JBG. À direita, pessoa ainda não identificada. 

JBG e amigos.

Jovem JBG.

Jovem JBG fardado.

JBG (à direita), ao lado de (supomos) Dona Veneranda. Juntas, amigas e familiares.

JBG nadador.

JBG, já velhinho.

[W.N] JBG, o historiador (provavelmente em meados dos anos 1970, quando ele escreveu um livro sobre a história de Currais Novos).

JBG (de branco, ao centro) proseando.



JBG.





sábado, 9 de novembro de 2019

ACTA DIURNA, de Câmara Cascudo, sobre o livro de estréia de Antonio Pinto de Medeiros, Um Poeta A Tôa



Um dos nossos editores, Victor H. Azevedo, regressando a sua pesquisa sobre Antonio Pinto de Medeiros, acabou por encontrar essa pérola numa edição do Jornal «Diário de Natal»: Uma resenha escrita por Câmara Cascudo, sobre o livro "Um Poeta à Toa", de Antonio Pinto de Medeiros. Considerando isso um achado, resolvemos postar o texto aqui

***

Termino UM POETA À TOA, de Antonio Pinto de Medeiros e a impressão é de ter acompanhado um Poeta através de um mundo estranho, iluminado pelas luzes rápidas de pensamentos que não tomam forma audível e sensível aos órgãos normais de percepção humana. É como uma imensa cidade adormecida ou morta, com as casas luminosas e vazias, as ruas cheias de homens, de carros, de soldados, de mulheres, de crianças, parados, fixos, conservando a posição em que foram fulminados pelo cataclisma.

Nada falta de beleza e de perfeição verbal, as joias da precisão vocabular, a originalidade da visão, a clareza preciosa da forma, a força nova, elástica, magnética de uma vida intensa, poderosa, mas cheia de mistério, de recato, de expressões reticenciais que ardem como brasas.

Nada ilude mais que essa linguagem hermética, coleante, feiticeira mas intraduzível aos ouvidos fáceis de qualquer leitor. Lembra canções húngaras, lentas, langues, ondulantes no ar como um dorso de serpente baudelaireana, ensopadas de melodia que se filtra na memória mas guardando o segredo de sua intimidade. Aquela música decorre em linha paralela ao nosso entendimento, mas não a nossa emoção. A compreensão gramatical é um primitivismo para mais de cem escolas literárias.

A ilusão dura até que a primeira palavra iluminadora apareça. Se alguém quiser percorrer a cidade imóvel sem a curiosidade perquiridora, bastará a musicalidade das frases para o encanto auditivo e para a sugestão criadora do pensamento individual, dogma de meio século para hoje.

Se o leitor atender ao apelo para a vida interna do poema à vida interior e rebelada, convulsa e tempestuosa, então sentirá o milagre coletivo de uma cidade ressuscitada. O movimento encherá as ruas, o ritmo desdobra-se-á em cambiantes infinitos, a multidão retomará passo, gesto e cadência, e todos os rumores da vida organizada em colmeia humana alargarão as ruas e as praças na sonoridade festiva da existência diária. O vento voltará a sacudir os estandartes parados e a espalhar pelo ar perfumes de flor e sons de clarins despertos para a vida e para a luta.

Termino a leitura de UM POETA À TOA com a surpresa de uma entidade intelectual cheia de palpitante ansiedade, percutindo todos os problemas, batendo com a mão impaciente na face dos mármores e dos bronzes perguntando inquieto: — PERCHÉ NON PARLI?

Um poeta à toa não é um poeta sem rumo e sem direção. Toa é a corda que prende um barco a outro para levá-lo contra a corrente, vencendo vento e maré. Que toa arrasta o Poeta para as aventuras do mar alto? Nenhum deixará de cumprir a fatalidade etimológica do próprio título. Poeta, "pociein", fazer, realizar. Os poemas que li são esses primeiros golpes, cortando a onda violenta. Esse é um dos livros mais intensos, de vida mais forte, de densidade mais impressionante de sua geração e momento brasileiro. Sente-se o impulso irresistível sacudindo o Poeta como uma aura impetuosa de mediunidade, gravando um diálogo trágico de sombras e relâmpagos, num céu convulso de tempestade. Qualquer dedução pessoal é apenas uma simples referência. O essencial é aproximar-se e viver com o Poeta os segredos que a iniciação revelará no plano dos sonhos e dos apocalipses. Não julgueis... mas antes, como seguindo o conselho de Santo Agostinho, TILLE LEGE, toma e lê...


sábado, 2 de novembro de 2019

Franklin Capistrano — POEMAS daflor dapele


[Capa: Falves Silva]

"Poemas daflor dapele" é um livro de poemas visuais, de Franklin Capistrano, publicado em 1988. O livro é dividido em 4 partes, cada uma com uma cor de papel respectiva: azulgrafemas, verdegrafemas, vermelhografemas e amarelografemas. 

Franklin Capistrano nasceu em 1951, na cidade de Monteiro/PB. Com oito anos de idade veio morar na capital do Rio Grande do Norte. Foi presidente do Cine Clube Tirol. Em 1964, ganhou um prêmio de poesia no Atheneu. Em 1965, mostrou "um catatau que produziu a Nei Leandro de Castro, [que] depois do que ouviu, resolveu rasgar tudo", diz Rejane Cardoso, na orelha do livro. Em 1986, funda, com Falves Silva e Anchieta Fernandes, o jornal "A Margem". É também médico psiquiatra e vereador pelo PSB.

O prefaciador do livro, Farias de Castro, nos fala que com os poemas do livro "O poeta nos confesssa sua preocupação com o futuro da poesia e do poema, nesta terra de tantos e tantos poetas. Procura novas formas/fórmulas para dizer o que 'sinto=vejo'. Busca e rebusca a palavra na sua intimidade essencial: faz um trabalho de vanguarda."

O livro, diagramado pelo próprio autor e por Falves Silva, trabalha  muito com o espaçamento das letras e dos espaços vazios da página. O exemplar que tivemos acesso tem certo esmaecimento na cor de suas páginas, então, para preservar um pouco do casamento entre a cor das páginas e os poemas, preferimos fazer versões símiles dos poemas que selecionamos para compor esta coletânea.


***

















quinta-feira, 17 de outubro de 2019

7 poemas inéditos em livro de José Bezerra Gomes


[Recorte de fotografia de José Bezerra Gomes, encontrado em um jornal]

José Bezerra Gomes nasceu no dia 9 de março de 1911, no Sítio Brejuí, Currais Novos (RN). Formou-se na UFMG, em Ciências Jurídicas e Sociais. Publicou os livros: Os Brutos (1938), Porque não se casa, Doutor? (1944), A Porta e o Vento (1974), Antologia Poética (1975), além de ensaios sobre a história de Currais Novos, Ferreira Itajubá e Teatro de João Redondo. Faleceu no dia 25 de maio de 1982, em Natal (RN).

Dele, já publicamos aqui no Poesia Subterrânea, uma seleta de poemas do livro Antologia Poética, seu único livro de poemas. Contudo, um dos nossos editores, Victor H. Azevedo, aventurou-se em hemerotecas, pesquisando sobre a vida e a obra de José Bezerra Gomes por via de jornais e revistas, e acabou por descobrir 7 poemas inéditos, que não constam na Antologia Poética. Victor também descobriu inúmeros fatos sobre o poeta, que ele pretende reunir em uma plaquete, intitulada JBG, a a ser lançada, possivelmente ainda este ano.


***

Doralice, a multiplice...

A música não é porque não estão tocando...
O artista também não porque não estão pintando...
— É Doralice, a inúmera,
saindo das chamas do fogo,
cavalgando nas ondas do mar...
A noiva não é porque não estão bordando...
O recém-nascido também não porque não estão chorando...
— É Doralice, a multiplicada, vestida na minha sombra.



***



DA MINHA TERRA EU TAMBÉM CONTO...
(poema bissexto de José Bezerra Gomes)
                                   (Para Hélio Galvão)


Na minha terra tem vaqueiro derrubador,
cantador e cangaceiro,
chapéu-de-couro, gurinhém, papamarelo,
Jararaca, Fabião, Jesuino Brilhante...

            — Minha mãe chamava-se Antônia,
            — meu avô chama-se João,
            — meu pai chama-se Vicente,
            — eu me chamo Fabião...

Na minha terra tem algodão,
feijão verde, milho-assado,
crôa-de-frade, pau-de-espinho...

            — Os espinhos do sertão
            — trago todos na memória,
            — Mandacaru, xiquexiquei,
            — macambira, palmatória...

Na minha terra tem tutano-de-boi,
panelada, jerimum com leite...
Chouriço-de-porco, mel-de-abelha...

            — Xiquexique é pau-de-espinho,
            — imburana é pau-de-abeia,
            — rosário de besta é canga
            — paletó de nêgo é peia...

Na minha terra tem braco, tem mulato,
tem caboclo, negro-cativo,
moça donzela, senhora dona...

            — perna de nêgo é cambito,
            — peito de nêgo é estambo,
            — barriga de nêgo é pote,
            — roupa de nêgo é mulambo...

Na minha terra tem graviola,
melancia, maracujá,
imbú maduro, quixaba doce...

            — Dá milho, feijão,
            — tem fruta, tem cana,
            — melão e banana,
            — arroz, algodão...

Na minha terra tem queijo-fresco,
cuscuz-de-milho, carne-de-sol,
canjica quente, manteiga-da-terra...

            — Com vinte dias de chuva,
            — logo após a vaquejada,
            — chega a fartura do leite,
            — manteiga, queijo e coalhada!

Na minha terra tem cigano-do-Egito,
curandeiro, benzedor,
matador-de-onça, mestre professor...

            — Um bê com a bê-a-bá,
            — um bê com é bê-é-bé,
            — um bê com i bê-i-bi,
            — um bê com ó bê-ó-bó...

Na minha terra tem concriz, sangue-de-boi, ribaçã,
galo-de-campina, beija flor,
maracanã, papagaio-falador...

            — No sertão é belo ver,
            — a seriema cantar,
            — a onça roncar na serra,
            — a arara gritar no ar...

Na minha terra tem adivinhação,
história-de-Trancoso, desafio...
— Mandou dizer el-rei nosso senhor
que vossa excelência contasse outra...


***


Espelho das Cinco Faces



Minha avó
mãos caducas
cabelos brancos
cercada de netos
os filhos abençoando...

Minha infância
fitas de Tom Mix
medo das almas
bancos escolares
lições decoradas...

Minha terra
fogueiras acesas
milho assado
fogos do ar
Senhor São João...

Minha riqueza
notas de maço de cigarro
a meninice correndo nua
pátio em roda do Brejuí
meu cavalo de pau galopando

Minha primeira namorada
mãos frias faces coradas
coração batendo olhares furtados


***


Meninice


Minha primeira arma
branca
foi uma rucega...

Menino desadorado...

E meu maior
desejo
era ser cangaceiro...

Zé Moleque...
Jesuíno Brilhante...
Capitão Antonio Silvino...


***


Balada do homem podre ressuscitado


Estendo-me nos braços
Sou Ele... Sou Ele...

Deploro ressuscitado
o filho anjo desprotegido
morto insepulto pagão.

Choro ressuscitado
   filha esquelética
desnaturada
órfã de pai vivo
nos braços da mãe viúva...

    Covarde... Covarde...

Tenho sede
sede de sede
sede do próprio sangue...

Meu santo
São Sebastião...

Sou Ele... Sou Vós...

Bêbedo rindo chorando...

                                                Currais Novos, maio de 1950


***


Nem tudo
foi
sem eles


***

Meditação para evocação da cidade multiplicada


Quando meus olhos
encantados
Contemplarem
a cidade
multiplicada,
Apontai-me todos
A rua em que guardei minha infância.
A casa
singela
solidária
olhando para a Praça Cristo Rei.
Sede por mim,
quanto por ela mesma,
a cidade toda multiplicada.
Facultai-me o dia
amanhecendo
para a beleza
da luz do sol
vivificando o mais obscuro batente
da cidade multiplicada.
Deferi-me o silêncio da noite enluarada
revelando-me a imagem infinita
da sombra da torre da Igreja Matriz
de Nossa Senhora Sant'Ana
glorificando o patrimônio do tesouro
eclesiástico
da cidade multiplicada.
Sede por mim mesmo, uno,
E por ela mesma, única,
A cidade de Currais Novos.


quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

poema inédito em livro de Antônio Pinto de Medeiros

O VOO
para C.


Entre o possível, que te entorpece,
E o impossível, que te limita,
A impostura do tempo,
Tempo de sacrilégio
E tempo de confiteor.
Tempo de calvário
E tempo de transfiguração.
Tempo de limbo
E tempo de lucernas,
que são promessas
cavadas no ventre do mistério
que és e te transubstancia
em sombra e orvalho.
Entre o possível que te embalsama,
E o impossível, que te amortalha,
A impostura do tempo.
Tempo de amar
E tempo de temer.
Tempo de ser
E tempo de existir.
Tempo de sonho
E tempo de vigília,
que é a tua projeção,
sob o torpor dos ciprestes,
desnuda e em pânico,
a espada do unânime silêncio.
Entre o possível que te multiplica,
E o impossível, que te submerge,
A impostura do tempo.
Tempo de desejo
E tempo de apocalipse.
Tempo de claridade
E tempo de réquiem.
Tempo de flor
E tempo de cinzas,
que são o asfalto em chamas,
onde repousarás
do último voo solitário
sem aeromoças e sem escalas.



domingo, 14 de maio de 2017

Moacy Cirne - Continua na Próxima

[Capa: Nei Leandro de Castro sobre desenho de Josef Hodek]



"Continua na Próxima" é uma antologia publicada em 1994, que reúne 51 poemas do Moacy Cirne, selecionados entre o período de 1979 à 1993, muitos deles reescritos, como é o caso no "POEM()" presente em "Cinema Pax", e com alguns inéditos do ano de 1993 - 1994.

No prefácio escrito pelo Nei Leandro de Castro, intitulado "Guerrilheiro Urbano da Poesia", Nei faz um resumo explicativo sobre as obras anteriores do Moacy, guiando o leitor leigo e desavisado sobre o tom político-vanguardista-de-putaria-experimental presente por toda a obra do autor.

Na seleção de poemas feitas para esta postagem resolvemos não colocar poemas do Cinema Pax, já que as modificações foram quase todas mínimas ou inexistentes, exceto o "POEM()" e "CONTINUA NA PRÓXIMA".

***


POEM(  )
político
erótico
debochado
sentimental
moderno
p da vida
paxcinemeiro
itanscaicoense
flutricoloráceo
alvialvi-negrume
alegrecanto
lilibertário
porreta
caralhaquântico
incomunicável
orelhoouvidoleitura
infômio
cajuína
gaderipó
lutypoty
sambachandango
maracalenga
soluampando
lunafélico
chperratálada
bucetômega
frevo-de-dois
baião-de-cinco
poesia e poema
que se comunicam
e não comunicam
no livro livre
da página doida
muito doida
pra lá de doida
muito doida
pra lá de doida
pra lá de caicó:
línguas lambidas
pelos erres
das auroras enfeitiçadas
e
trigalaicas
aventuras noturnas
em
saturno
júpiter
mercúrio
sonhos sonos sons
de vogais e consoantes
que explodem
em porres monumentais
e manchetes garrafais
mordendo o céu
da boca louca louca
prazeres de abril
nos contos da lua vaga
da lua gaga
antes e depois
da hora cruviana
antes e depois
da morte anunciada
antes e depois
da hora dilacerada.
o poema existe:
eia a poesia
sem
janaínas
sem
janices
sem
janeides
e
sem
melancias.

(in Cinema Pax, 1983, reescrito em 1994)


***

CONTINUA NA PRÓXIMA

o seriado que eu vivi
não teve fim,
                     acabou,
continua na próxima semana
com a dor que
                       ficou

***

[de Objetos verbais (1979)]:


***

ANTIPROJETO Nº6

1.
2.
3.
4.
5.
6.
7. faça uma salada tropical com as 120 mil palavras do aurelião.
8. junte à salada uma garrafa de murim. e um livro de zola.
9. sirva o poema bem gelado.

***

talvez sim
talvez ficção

***

[de Um panfleto para Godard (1986)]:




METAPORNOPÔ



sombra penumbra sombra
câmera escura,
                               lanterna mágica,
somos dois a se miramar,
somos dois a se miramar.
                sombra,
                penumbra
                sombra,
chuvas de janeiro,
                                      mentiras de abril,
eis o silêncio
                               da distante
                                                      cascata,
desenho a se construir
                                               nos prelúdios da manhã.
sombra
                penumbra
                                   sombra:
somos dois,
                       despidos,
                                               olhos nos olhos,
os corpos febris,
a fantasia a mil,
o cinema em transe,
tuas mãos colherão o meu sexo,
pênis que tu queres
pênis,
caralho dos teus lençóis
carnavais,
e o levarás à boca
                                               com sofreguidão.
marte e vênus,
                                    visitarei todos os planetas conhecidos
                                                                              e desconhecidos
— esperma e esperma,
                                                               cavalgarei em teus cabelos
                                                               de criança e mulher,
                                                               de criança e mulher.
finalmente
em natal,
                        sua claridade potengi
                        sua claridade pirangi
poema a deslizar
                                   sobre o papel azul
                                                                         da ansiedade,
começarei a te lamber
                                                  pela orelha esquerda.
ou pela direita,
                                     tanto faz.
                                     tanto faz.
o nosso amor só tem um nordeste
         e todos os caminhos
         levam
         à alvorada mineral
         do prazer.
em seguida,
                         caicó e solidão,
                                                               lamberei tua língua
                                                               num beijo sem fim:
língua contra língua,
                                               assim assim.
lamberei teu pescoço.
teus seios lamberei.
teus desejos lamberei.

voltarei aos teus seios.
                                               lambidas e carícias,
                                               o que será de mim?
apalparei tua bunda,
                                               caramba carambola
                                               maraca maracatu
                                               dedos à procura do sol negro
                                               sempre a palpitar e palpitar.
mas o poema,
                               sonho maldito,
                               fla fle fli flo flu,
                                                         prefere curtir,
                                                         a suruba literária
          de teresa kac trindade
          no jardim das maravalhas
          para então cantá-la
          em prosa e pau
                                  pau e prosa
          ao som do trio elétrico da
               bahia
          com muito vatapá-pá-pá
          viva a mulata-ta-ta
          viva maria-ia-ia
          viva a filosomia-ia-ia
          nos arredores
                                               da poesia.
se uma onda engole a outra
nas saudades de copacabana

é que existe um itinerário
                                                    urbano



                                                                              para o beijo na boca
                                                                              para o suor du corpo
se uma onda engole a outra
                                                                              o poema engole o poema
                                                                                                        em Ipanema
se uma onda engole a outra
                                                       “foda-se o destino e o amanhã
                                                       hoje tem fluminense no maracanã”
se uma onda engole a outra
a menina, guria menina,
com sua voz
mangaba,
desenha no ar
o espanto
                    da descoberta:
a burguesia vai à merda,
vai à merda o capital.
a burguesona dá a bunda
pensando em Lourival.
se cristo trepou com Madalena
chico transou com a irmã lualena.
as vozess         da puta venérea
apodrecem           a porra velha.
para cada eclipse em saturno
há um terremoto em plutão.
para cada santa frescura
há um santo cagalhão.
se uma onda
engole
a outra,
onda ondeia ondeante,
a ginástica da vida,
mais do que acrobacia,
é vida:
   vida à esquerda,
               companheira,
vida sempre viva,
vida sempre luta,
                companheira,
                os dois a se miramar,
                olhos nos olhos,
                os corpos febris,
vida sempre
vida sempre à esquerda,
                carvalho dos teus anzóis
                canaviais.
a ginástica
                     da vida,
                                    mais do que acrobacia,
                     é vida:
                                    viver é se multiplicar
                                               pelos labirintos
                                                                   do sonho
                                    pelos labirintos da            luta,
                                                                                     lutaremos,
                                                                                     lutarás.
                     vida       mil vezes
                     vida.
                     vida,      apenas
                     lida.
sombra
apenas
penumbra,              vamos todos sonhar
                                                                                      lutar
                                    por um novo amanhã
                                                                manhãs
                                                                de
                                                                outubro
                                   beijando a revolução
                                   paratibum-bum-bum
                                   paratibang-bang-bang.
                                   sombra
                                   penumbra
                                   sombra,
                                   somos dois a se
                                                          miramar
                                  nos suruberros do poema
                                                                        poematesão
                                  nos limites do          poema
                                                                        poemaficção.
                              

***


EIS O POEMA

                               palavra líquida
que me caicó
à margem
dos rios barranova e Seridó
goiaba manga e mangaba
nos limites da linguagem
                               miragem potiguar
da cidade
                                                       solar
                                                  milenar
                                                    sonhar
à espera dos revolucionários
                                   jardinários
                   chumchumbregando em noites cruvichanas
enquanto a palavra lambígua não vem
                                                          não vai
                    lambelambendo os ventos da manhã
manhã que se putálida
                    nos becos natalense
                    onde o “palácio do governo”
                    era uma zona de rosas
                    e potengis
                    nas madrugadas bucetais
                    à sombra à sombra dos alecrins punhais

***

[de Docemente experimental (1988)]:



                               
POEMAPRASERQUEIMADO
(Projeto: 1968)
(Versão:1987)

                1. adquira, ou faça você mesmo, uma bandeira dos
estados unidos da américa, de qualquer formato e/ou
dimensão. o material deverá ser inflamável.
                2. em praça pública, à tarde ou à noite, ou de manhã,
não importa a hora, não importa o lugar,            
                                                                                              toque fogo
                                                                                              na bandeira.
                poderá ser ao som de “podres poderes”,
                                                                                              de caetano.
                3. o poema só existirá como
                                                                              poema
                no exato momento em que estiver sendo consumido pelas
                                                                              chamas.
                4. sempre haverá alguém a pensar em bachelard: “com
o fogo tudo se modifica, quando queremos que tudo se
modifique apelamos para o fogo”.
                5. se se preferir levar a bandeira para casa ou para o
trabalho — guardando-a (ou não) —, não se terá conservado
um poema, mas sim um simples signo do imperialismo
norte-americano.
                6. neste caso, eis o melhor a fazer: tomar coca-cola,
estupidamente quente, com pimenta malagueta:
                                                                                              a pausa que meleca.

                                               7. já o poema,
                                               enquanto poema,
                                               será dedicado a
                                                               clemente padín,
                                               latino-americano
                                               como todos
                                                                   nós.

***


COMPANHEIRO

                                               Ernesto                               
                                                                                              Martins,
teu marxismo                  
                                               sempre foi                        
                                                                                              mais vendaval
teu marxismo
                                               sempre foi
                                                                                              mais terremoto
enquanto nós,
                                               poetas
                                                                                              do imprevisível,
procurávamos
                                               a utopia
                                                                                              e a revolução
nas difíceis
                                               noites
                                                                                              da repressão.
A claridade
                                               de tuas
                                                                                              ideias
iluminou
                                               muitas e muitas
                                                                                              cabeças
iluminou
                                               muitos e muitos
                                                                                              corações
apesar
                                               da crise
                                               dos rachas
                                               dos desvios
                                                                                              das práticas
socialistas
                                               em nome em nome
                                                                                              da verdade
revolucionária.
                                               O que fazer?
                                                                                              Aonde vamos?
“À esquerda
                                               à esquerda
                                                                                              à esquerda
que a direita
                                               é a rota
                                                                                              dos traidores.”
Maiakóvski,
                                               afinal,
                                                                                              ainda nos emociona.
Companheiro
Ernesto Martins,
último dos leninistas,
os tempos
são
outros,
outras
são
(muitas d)as
angústias,
mas, amigo,
                                               a luta a luta
                                                                                               continua
e as rosas
                                               vermelhas
                                                                                              da paixão
renascerão
                                               renascerão
                                                                                              em outubro
ou, quem sabe,
                                               no próximo
                                                                                              verão.

***
    




***

[de Balaio incomum (1992)]:

***

***



***

***

[de Qualquer tudo (1993)]:




UM OLHAR CANGAÇO

um certo cansaço
um lambe-lambe sem memória
um velho cinema pax
um cão sem plumas
um potengi ao crespuscelecer
um maraca maracanã
um poema sem poesia
um xerenhenhenhé de mulher
um quase tudo nenhum
     e
50
     sonhos adormenguecidos

***

RECOMEÇO

                                               Sei do sonho:
procuro tua sombra na
                penumbra
                               da memória líquida
e nada encontro.
                               A lua não é vermelha
                                                               não é violeta
                                                   não é verdecoisa
                                                                        mas
                                          os loucos da madrugada
anunciam as primeiras águas da manhã.
                                                                               Sei do sonho?
                                                               Tua sombra pagã
                                                       é um corpo que me foge
                               das mãos cansadas de espantos
                       e abismos.
                                     A árvore sonolenta
                                                      anoitece os meus delírios.
                                     Não te vejo na claridade
                                                                              do silêncio.
                                                     O sol é um pássaro ferido
                                                   na solidão
                                        de meus gestos            de meus gritos
                                                                         e a hora cruviana
                                                               é uma graviola
                                                                           grávida
                                               de aromas e carnes
                               pronta para ser saboreada.
                                               Sei.
                                   Não foi um sonho.
                Como encontrar,
                           então,
                               na
              arquitetura fluvial
         de meus quereres,
                               as linhas
                e curvas
de teu corpo barrento-canela?
                                                               Ah, não! Ah, sim!
                                                                              Existe
                                                                                 um
                                                                    grande sertão
                                               nas veredas da minha paixão.
E eu sei do sonho.
                Procuro tua sombra líquida
                                                                    e nada encontro.
                                                                                  A lua não é verdeluã
                                                                                                mas
                                                                                     tua sombra pagã
                                                                             anoitece os meus delírios.
                                                                                              Como encontra,
                                                                                       sol e solidão,
                                                                       a arquitetura colonial
                                                               de teu corpo fluvial?
                                                        Como encontra,
                                               no silêncio de meus gritos,
tua sombra teus aromas tuas carnes?
                                                      Sim,
                                                      não.
                                                      Tua memória vermelha
                                                      é uma sombra grávida
                                                      de morenezas e reentrâncias
                                                      azuis.
                                    Docemente azuis.
                                                               Barrentas e azuis.

***

fluvialência intrafuzível: a tarde
laranjatálida, viração lusco fusco
ventania, anuncia a geometria pura
da paixão: o fusco lusco
ao quebrar da noite desenha
as primeiras estrelaluãs que não
voltam demais: a noite noitera,
com seu vinho tinto e o canto de
lorca, o federico, se prepara para
a hora cruviana embalada pela doce
palavra azul e branca e verdechão:
                                                               a hora cruviana é
                                                          uma planície sul de
                                                  emoções: apenasmente
                                                    a xoxotacetaquiquinha
                                                  de uma rapariga mulher
                                                  cajuína, madrugada sim,
                                               madrugada não, seria mui
                                                    capaz de vivenciá-la: se
                                                for a quiquinha pluriavelã
                                      de uma camila moreneza bela
                                        e azulmarinha, melhor ainda:
a nuvem vermelha que te
darei, camila, não será
uma nuvem qualquer uma:
será desenhada por di, o
Cavalcanti, e abençoada
pelos amarelos de van g.
nas terras de são saruê:
                                               só que camila
                                               não existe mais,
                                               fugiu para Mangaratiba
                                               na penumbra de um devaneio
                                               noturnoluar.

***




                                                               



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***

[de Dez poemas para José Bezerra Gomes (1993)]:



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[de Poemas imperfeitos (1993-1994)]:



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POEMa para beth

as auroráceas
de teu olhar-fêmea
            olhar-feitiçaria
doce como um licor de poesia
me fazem deus
e o diabo
nas planícies morenáceas
de teu corpo
manhãs
xodoborogodências
e madrugadas de outubro.

***

E MUITO MAIS

lula-esperança
  além do sonho
     um brasil-temperança
         e mais

lula-solidariedade
   além da esperança
      um brasil-verdade
         e mais

lula-emoção
    além da solidariedade
       um brasil-paixão
          e mais

lula-metalurgia
    além da emoção
       um brasil-magia
                         e muito mais

***

4 DE OUTUBRO

Será que ainda vale a pena amar o Brasil?
Será que ainda vale a pena viver no Brasil?
Será que ainda vale a pena acreditar no Brasil?
O BRASIL TÁ FUDIDO?
FUDIDO E MAL PAGO?
Só sei de uma coisa:
quando eu morrer,
caso haja alguma bandeira cobrindo o meu caixão,
que não seja a do Brasil.
Que seja a do PT.
Ou, então, a do Fluminense.
Qualquer uma, ou as duas,
menos a de um país sem memória.

***